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Como Escrever Um Roteiro de Cinema – Segundo Ato

Primeiramente, peço desculpas ao pessoal que vêm aguardando o segundo ato desta série, mas resolvi dedicar as minhas poucas horas vagas à apenas um projeto – ao invés de seguir a minha tendência natural de iniciar sete e não terminar nenhum – “Por quê sete?” Por que não? É tão aleatório quanto dez e é o meu número de sorte.

O projeto a que me refiro, o que tenho focado as minhas energias nos últimos meses, é um roteiro de longa metragem, o qual, finalmente, concluí o first draft (primeiro rascunho) esta semana. Logo, aqui vai a primeira dica:

– Assim que você terminar o primeiro esboço, coloque o roteiro na gaveta e esqueça dele por, no mínimo, duas semanas, desta forma você desenvolverá “fresh eyes” e poderá fazer uma leitura um pouco mais imparcial do seu trabalho.

No entanto, se você está lendo este artigo, deve estar longe de terminar o seu roteiro, mas mantenha esta dica em mente, pois quando estiver estagnado, as vezes a única forma de resolver o problema é distanciando-se da escrita.

Sim, eu sei, é um pouco confuso, estamos no segundo ato da série e nem começamos a falar sobre o primeiro ato do seu roteiro, o que indica que esta série terá mais de três partes, o que me faz lembrar: A estrutura de três atos é apenas a forma mais clássica de se escrever um roteiro, o seu enredo poderá ter três, quatro ou sete atos, caso forem necessários – “Por quê sete?” Vide acima  – Ex. Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of The Lost Ark, 1981) tem sete atos. Mas, vamos nos concentrar no modelo clássico, que na verdade são quatro atos, já que o segundo ato é dividido em “Ato II A” e “Ato II B”.

A estrutura de três atos é comumente repartida da seguinte forma, trinta páginas para o primeiro ato (a apresentação ou setup), sessenta para o segundo (o conflito) e trinta para o terceiro (a resolução) – não, o roteiro  do seu longa não precisa ter cento e vinte páginas, isto é apenas uma média. Rede Social (The Social Network, 2010) tem cento e sessenta e três páginas, enquanto que Antes do Entardecer (Before Sunset, 2004) possui apenas sessenta e uma.

As dez primeiras páginas do seu roteiro serão as mais reescritas, pois são as mais importantes do seu trabalho. Isto é devido ao simples fato dos responsáveis por lerem roteiros não terem tempo e/ou paciência para lerem todos por completo. Em uma entrevista coletiva, George Clooney disse que lê apenas até as primeiras quatro ou cinco páginas dos roteiros que ele recebe antes de jogá-los para escanteio. Albert Brooks concorda dizendo, “Se as primeiras linhas de diálogo soam falsas, eu desisto.”

Por isto é importante que o seu incidente ou grande evento (inciting incident), não somente apareça no primeiro ato, mas também o mais breve possível. O “grande evento”, é o momento catalisador da sua história. É quando algo irreversível acontece com o protagonista, como ocorre com o Marty McFly em De Volta para o Futuro (1985), quando ele acidentalmente viaja para 1955 enquanto tentando escapar dos terroristas libaneses ou quando os terroristas alemães assumem controle do Nakatomi Plaza em Duro de Matar (1988) – não, o seu incidente não precisa envolver terroristas.

Mas antes de chegar ao inciting incident você precisa entender mais dois termos, exposição e transição. Muitos screenwriting gurus dizem que a indicação de um roteirista profissional é como ele(a) expõe os seus personagens e como ele(a) transita de uma cena para outra. A sua audiência precisa saber sobre o seu personagem, de onde ele veio, o que ele faz, religião, orientação sexual, etc, mas não significa que você deva criar cenas para que estas informações sejam despejadas.

Indiferente de qual seja a sua opinião sobre o filme A Ressaca (The Hangover, 2009) – esta é a tradução do título feita pelos portugueses, pois eu me recuso a usar o título brasileiro – você há de convir que o filme é dinâmico e expõe os personagens de uma maneira natural e gradual, mas o script original tem pouca semelhança com o produto final. Não vou entrar em detalhes, mas aqui vai um mal exemplo de como expor um personagem – que obviamente não foi traduzido para o celuloide.

Aqui, o personagem Doug pergunta, para o seu amigo Alan, se ele e a esposa ainda estão juntos.  Esta seria uma pergunta bastante insensata vinda de um melhor amigo que lhe conhece desde os tempos do colégio, mas, vamos supor que, por motivos desconhecidos, eles não se veem à meses. O seu outro amigo, Phil, responde. “Claro que sim, Doug. Jesus, o Alan e a Becky estão juntos por 14 anos. Quando eles se encontraram pela primeira vez, ele usava aparelho e ela era virgem.” É óbvio que todas as pessoas presentes estão cientes da duração do relacionamento do Alan com a Becky, o que torna claro que o único propósito deste diálogo é informar a audiência deste fato.

Um bom exemplo de como expor os seus personagens estão nos primeiros dez minutos do filme, que aliás, não existem no roteiro. Quando Phil, o personagem do Bradley Cooper, coleta dinheiro dos seus estudantes para umas suposta atividade, mas com o intuito de gastar o dinheiro em Las Vegas, você entende que este personagem não é politicamente correto. Enquanto Doug (Justin Bartha) e Alan (Zach Galifianakis) esperam pelo Phil na porta da escola, Alan indaga, “Por que o carro precisa estar tão próximo da escola?” Quando Doug pergunta, “Qual é o problema?”, Alan responde, “Eu tenho que manter no mínimo sessenta metros de distância de escolas e Chuck E. Cheese.” Devido a esta resposta, começamos a duvidar da sanidade mental do Alan. Na cena seguinte, Stu (Ed Helms) mente para a sua namorada, apesar de demonstrar ser submisso a ela. E muitas destas exposições de personagens não estão no diálogo, mas nas reações e vestuário.

Moving the plot forward ou “avançando o seu enredo” é o método mais orgânico de mover a sua trama de uma cena para outra. No seu roteiro, todas as cenas devem servir este proposito, o de avançar a sua história na direção do terceiro ato, se você estiver isto em mente, as suas transições acontecerão naturalmente. Aline Brosh McKenna, a escritora que adaptou o livro The Devil Wears Prada para as telas, disse que quando começou a escrever roteiros, ela terminava uma cena com os personagens dizendo, “Então, nos encontramos na próxima cena, tudo bem?”, “Sim, tudo bem!” Claro que não literalmente, o que ela quis dizer é que ela não sabia como terminar a cena anterior e iniciar a próxima.

Disclaimer: Antes de continuar, eu gostaria de deixar claro que tentei procurar roteiros em português para usar como exemplos, mas não consegui encontrá-los online. Achei que pelo menos o Tropa de Elite 2 estaria disponível para estudo, mas por motivos burocráticos ou gananciosos a produtora não o disponibiliza. Por exemplo, a Sony Pictures posta vários de seus roteiros no seu site em formato PDF, como o que vou utilizar agora para demonstrar um exemplo de transição enquanto avançando o enredo, A Rede Social (The Social Network, 2010).

A primeira cena termina com um dos irmãos gêmeos tentando convencer o personagem principal, Mark Zuckerberg, a construir a rede social para eles, Mark finaliza com um “I’m in.” ou “Estou dentro.” As duas cenas subsequentes ocorrem em locais e tempos diferentes mas são diretamente informadas pela primeira cena, com o enredo principal funcionando em tempo real e flashbacks ao mesmo tempo. O enredo principal é o que o nome já sugere, a trama que ocupa mais páginas no roteiro, as outras são chamadas subplots – ou sub-enredos.

A maioria dos longas possuem subplots, não apenas para enriquecer o roteiro mas para preencher os noventa minutos que demanda um longa-metragem. Subplots são histórias secundárias que ocorrem paralelas ao enredo principal. Essas narrativas são, normalmente, diretamente relacionadas ao conto central e referidas como historia “B”, “C”, etc. – historia “A” sendo a principal. No caso de A Rede Social, alguns dos subplots são as ações judiciais, estes subplots, por sua vez têm seus próprios começos, meios e fins.

Chegamos ao fim do segundo ato da série, discutimos as estruturas principais que formam o roteiro de um longa metragem e no próximo ato falarei sobre terminologias e formatos.

Caso tenha perguntas, escreva-as na área de comentários, e boa escrita!

Como Escrever Um Roteiro de Cinema – Primeiro Ato

Forum do Curso de Cinema

35 Comments

  1. Pingback: Como Escrever Um Roteiro de Cinema – Primeiro Ato | Curso de Cinema

  2. Douglas Reginaldo Reply

    Sem perguntas, só vim agradecer por manter o site. 

    Estou começando a escrever meu primeiro roteiro agora, ainda não escrevi uma linha do roteiro em si ainda, mas a preparação está andando, devagar, mas andando. 

    Acabei de ler o Story do Robert McKee pra ter algum tipo de base além dos estudos na internet e acho que já é hora de começar a escrever, né? Quanto mais se pratica melhor ficamos, pelo menos é o que dizem haha. 

    Espero que o seu roteiro fique muito bom, e se ficar quem sabe não acaba até usando como material aqui no site? 

    Boa sorte com tudo. 
    Abrs, Doug 

    1. Curso de Cinema Reply

      Boa noite Doug!

      Sim, o Robert McKee é considerado o guru dos roteiristas, até celebridades frequentam a suas palestras, mas para te dizer a verdade eu estou mais do lado do Charlie Kaufman, falando-se de screenwriting. O McKee tem muitos “don’ts”, então tire o que você precisa e não se sinta reprimido pelas regras dele, o mesmo é válido para os meus textos também.

      Certamente, assim que meus longas forem produzidos irei postá-lo aqui.

      Obrigado pela força e se tiver alguma dúvida ou precisar de opinião, entre em contato!

      1. Eduardha Alves Reply

        Olá! Primeiro quero dar os parabéns pelo site que é lindo e super funcional. Também estou na situação do amigo acima, começando a escrever. No entanto, meu projeto é de um documentário. Como é meu primeiro trabalho de cinema, tenho muitas dúvidas. Já comprei o livro do Puccini sobre elaboração de roteiros de docs, que certamente será meu guia, mas ficaria muito feliz se surgisse por aqui algum post relacionado à produção de documentários. 

        Não tarde a escrever o terceiro ato desta série! Estamos ansiosos!

        Sucesso,

        Eduardha Alves

        1. Curso de Cinema Reply

          Oi Eduardha,
          primeiramente, muito obrigado pelos elogios!

          Fico muito contente em saber que você tem interesse por documentários, é o gênero que mais precisamos no Brasil e o que mais está em defasagem.

          Infelizmente não tenho conhecimento de um artigo específico sobre documentários. Não sei se eu entendi a pergunta, mas o seu interesse é sobre pré-produção (roteiro, financiamento), produção (filmagem) ou ambos?

          O que eu posso te dizer é que o sistema de ambos – documentários e filmes – são bastante similares. Os documentaristas nos vendem a idéia que eles saíram com uma câmera coletando entrevistas e retornaram com um documentário, mas a verdade é contrária.

          Tudo deve ser planejado, pois você, o documentarista, tem uma tese que você quer traduzir para a tela – você não começa a ideia com uma pergunta, você começa com uma resposta, com algo que você quer dizer. Não existe nada mais tendencioso que um documentário, então espero que você esteja do lado bom da “força”.

          Eu diria que a média, em um bom documentário é composta por 80% de sequências pré-planejadas e 20% de “happy accidents”.

          Bom, fique à vontade em compartilhar as suas ideias e dúvidas, eu certamente irei escrever algo sobre este assunto no futuro.

          Beijo e boa sorte!

  3. Jorge Santos Reply

    Em primeiro lugar gostaria de ter recebido o e-mail sobre a matéria de como escrever um roteiro, como adoro cinema e sempre estamos procurando aprender, a sua matéria é essencial para quem quer dar os primeiros passos para escrever um roteiro cinematográfico.  Eu gostaria de fazer uma pergunta que até foi efetuada por minha filha e que talvez seja de interesse de outras pessoas que subscrevem sua página. Se é essencial dentro do roteiro expressar o comportamento das pessoas dentro do roteiro, ou isso fica por conta do diretor ao interpretar o roteiro.  Fica aí a pergunta se puder ser  respondida seria interessante para todos.

    Mantenha o seu site porque ele é muito interessante. 

      1. Jorge Santos Reply

        Em primeiro lugar agradeço a resposta e o exemplo postado que acredito será de grande ajuda para quem está iniciando na prática de escrever roteiro. Eu mesmo já escrevi um roteiro na primeira pessoa. Ele está pronto. Entretanto, quem deve dar a interpretação, no meu entendimento é o ator. Estou me preparando para criação de um pequeno longa. Para isso, estou contando com a colaboração de alguns atores com e/ou sem experiência que farão em primeiro lugar uma leitura do texto. A partir daí, definiremos quem é quem em cada personagem criado, para começarmos a definir locações e filmagem.

        Queria de coração agradecer sua dica quanto ao texto, colocado que bem exemplifica como se deve colocar o personagem. Acredito que a criação, fica a partir do roteiro, no campo na hora da filmagem, por quem estará dirigindo e atuando. Mais uma vez meus parabéns pela iniciativa do blog/site.

      2. Regia Mend Reply

        scriptdoctoring basico:

        INT. CASA DA TIA JOANA/SALA – DIA

        O telefone toca.

        MARIANA
        (no telefone)
        Alo… Você tem certeza?

        Mariana desliga.

        Mariana pega a mochila e sai.

        corte o COMECA A. Utilize sempre verbos na terceira pessoa do singular, tempo presente. Isto vale para todos os começa a correr, começa a andar, começa a falar e começa qualquer coisa.
        Corte a descricao redundante de acao (Mariana atende, pois basta que tenha o dialogo para saber que atendeu.
        Ainda uma rubrica/parenthesis: No telefone ou Filtrado quando esta falando pelo telefone ou ouvindo do telefone .
        Dispense o PALIDA e o modo como ela deposita o telefone de volta. O ator deve ter informacao suficiente obtida ao longo do roteiro para saber interpretar qual reacao deve ter (o ator sabe ali o que foi que ele ouviu e que cara deve fazer com a noticia, nao diga a Fernanda Montenegro que ela deve ficar palida e pousar o fone vagarosamente, que ela vai te dizer que nao se formou nos quadros da Malhaçao .
        Corte o de casa: Sai é o bastante ja que a camera nao vai fazer tracking do personagem saindo porta afora, caso em que caberia outro cabecalho de cena para levar a camera a um outro ambiente.
        SALA somente, a menos que tenha sala de estar e de jantar na casa.
        DIA somente. A menos que voce queira um teto solar para a camera olhar para cima e ver o sol a pique ou que voce queira colocar uma legenda dizendo meio-dia (mas neste caso faltaria a legenda!!!!)
        Se sao duas acoes em momentos diferentes, utilize uma nova linha. Nao coloque nas linhas de acao alguns segundos mais tarde porque o camera nao vai esperar passar os segundos para ligar de novo a camera. Uma nova linha significa um novo enquadramento, significa passagem de tempo, etc.

  4. Gkuhnert Reply

    Sábado passado fui ao encontro de Fans de Starwars e descobri que Lucas trabalhou inicialmente como roteirista de Copola fazendo o primeiro tratamento de Apocalipse Now em 1971 e após anos de trabalho não rolou naquele momento, a pergunta é, como soube que ele fez diversos tratamentos de roteiros para Starwars , quem diz que precisa um segundo ou terceiro tratamento de roteiro?

    1. Antunes Reply

      Quem diz normalmente é o produtor ou diretor. Mas se você escreve sozinho é você mesmo que diz quantos tratamentos são necessários. Tem que qual a qualidade que você pretende alcançar. A não ser que você seja um prodígio, um esteta, que escreve tudo de primeira, um verdadeiro gênio como Mozart. O idela é fazer várias e várias e várias versões até alcançar a perfeição, ou o mais próximo dela.   Ernest Hemingway já dizia que: “O primeiro tratamento de qualquer coisa é uma merda”.

    2. Regia Mend Reply

      no mundo real, existe uma coisa chamada quem esta ganhando o que, e muitas vezes os roteiros sao escritos e reescritos, vendidos, revendidos, os roteiristas iniciais sao chutados para fora do processo e quando para nas telas, costuma constar so os nome do ultimo… cada um recebe uma bagatela para vender seus direitos de criador.

  5. Marcela Reply

    Olá, achei bem bacana o material, mas acho interessante frisar um pequeno detalhe. Mackee não sugere a contagem dos três atos por numero de páginas e sim por porcentagem, seria então 20% primeiro ato, 60% segundo ato e 20% terceiro ato. Dessa forma, se observar essas porcentagens com relação a tempo de filme, verá o quanto é difícil encontrar um que não se encaixe.

    Mas o conteúdo está bem legal do blog! parabéns!

    1. Curso de Cinema Reply

      Oi Marcela, obrigado por visitar o blog.

      Em relação ao número de páginas, dá praticamente na mesma com que eu disse. já que a média dos roteiros de longa têm 120 páginas – o segundo ato sendo o miolo. O meu conselho continua o mesmo, tente não encarar o processo de uma forma matemática, caso contrário você irá acabar com o que eles chamam aqui de “cookie-cutter”.

      A estrutura de três atos não é tão pertinente quanto você imagina. Por exemplo, Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida tem sete atos. Uma Mente Brilhante, tem cinco. Em Velocidade Máxima o segundo ato começa depois da página quarenta.

      Novamente, agradeço por visitar o CC!

      P.S. Já que estamos sendo tão minuciosos, o nome do bacana é McKee. ;)

      1. Regia Mend Reply

        nao importa se voce vai escrever seu roteiro em 3 5 ou 7 atos, mas sejam quantos forem, sao estruturados, isto e, tem uma receita para escrever em 3, outra em 5, outra em 7. Tem a receita do seriado televisivo, do sitcom, da comedia romantica. Todo mundo sabe que com farinha acucar e ovos da para fazer um bolo mas ou voce tem um roteiro do que fazer ate chegar no bolo ou voce vai acabar com uma meleca nas maos que nao vai dar para comer. Voce nao precisa aprender tudo para comecar a escrever um roteiro, mas voce vai ter que ir aprendendo a medida que sua historia for ganhando forma. E depois para se destacar, voce vai ter de ter aprendido como que e feito, o que fazem e no que o seu foi original.

        1. Curso de Cinema Reply

          Boa tarde Regia!
          Bom, eu não acredito em “receitas” para se escrever roteiros, especialmente roteiros originais que mereçam alguma atenção.

          Existe uma linguagem e formatação que devem ser seguidos – e até estas podem ser ignoradas ou reinventadas – mas eu não acredito que exista uma “receita” para cada tipo de filme, certamente não para os filmes que eu quero assistir.

          Como você citou comédia romântica… Um tempo atrás tive a infelicidade de assistir, “Qual o Seu Número?” (2011), um filme que segue uma destas receitas ao pé da letra e que acaba com um bolo intragável, na minha opinão – aliás, tem um bolo neste filme.

          Em contrapartida, “Antes do Amanhecer” (1995), ignora a maioria dos clichês em screenwriting e é uma das minhas comédias românticas preferidas. Quando é o “inciting incident”? Quando eles se encontram no trem? Quando eles descem do trem juntos? Quando eles fazem o acordo de que aquelas horas são suas últimas horas? Quando eles se despedem no fim com o intuito de se reencontrarem – o que faria este filme, um filme de um ato e meio? Não importa, o que importa, neste caso, é que os personagens, a química entre os eles e os diálogos são verdadeiros.

          A minha dica continua sendo a mesma, leia o máximo possível sobre o assunto e ouça conselhos de várias pessoas, mas pegue apenas o que te sirva e ignore o resto.

          1. Antunes

            Vou entrar nesta conversa. Ernest Hemingway tem uma frase boa sobre isso que se aplica a literatura, mas também podemos usar em roteirismo e cinema e até em artes de modo geral ele diz: “Tenha algo a dizer, diga e corte o resto”.
            Você tem que ter algo a dizer, você tem que ter conteúdo, não é procurar o que dizer, você procura como dizer. Mas se você não tem o que dizer, não tem conteúdo, nenhuma receita vai de salvar.

          2. Curso de Cinema

            Exatamente Antunes, me lembrou o que o Charlie Kaufman disse em uma palestra recentemente,

            “Eu não posso dizer a ninguém como escrever um roteiro, porque qualquer coisa de valor que você venha a fazer, virá de você. Como eu escrevo não é como você escreve e o propósito de qualquer ato criativo é este. O que eu tenho a oferecer, sou eu. O que você tem a oferecer, é você. E se você se oferecer com autenticidade e generosidade, eu irei me comover.”

          3. Antunes

            Arrasou, Cara!!! Esta palestra acho que está disponível por aí em áudio. Mas a tua tradução é maravilhosa. Fiquei comovido lendo-a. Parabéns. Tem site é fantástico. Continue este trabalho, tá valendo muito a pena acompanhar. Abraços fraternos.

  6. ALAN MAXWEEL Reply

    muito legal seu site eu tambem estou começando a gravar filmes ja um curta metragem e agora ja estou em um filme e digo que melhor que na pratica para aprender não existe estude muito mas sempre pode em pratica o que você aprendeu.

  7. ALAN MAXWEEL Reply

    OLA GOSTARIA DE SABER COMO É MAIS OU MENOS ESCRITO O ROTEIRO DE UM FILME EM CAMERA NA MÃO COMO NO EXEMPLO BRUXA DE BLAIR,Atividade Paranormal JA QUE SÃO OS ATORES QUE PRECISAM SABER FILMAR?

    E assistam ao trailer de um filme independente de terror produzido no Brasil.

    Direção Alan Maxweel

    link:https://www.youtube.com/watch?v=5xgJ9kYxl-0

    1. Curso de Cinema Reply

      De acordo com o Wikipedia, The Blair Witch Project foi feito com um esboço de 68 páginas, com o diálogo sendo improvisado pelos atores. Eu aconselho você a escrever o máximo possível e deixar o mínimo para a produção.

      Não, o atores não precisam saber filmar, você pode – deve – filmar as tomadas POV deles e deixá-los filmar apenas partes essenciais, onde parte do corpo deles tenha que aparecer na cena – através de um espelho, por exemplo.

      Parabéns pelo trailer, depois poste o link do longa aqui se desejar.

      Abraço!

      1. Regia Mend Reply

        voce encontra cursos de roteiro de documentario ja ministrado em algumas universidades e tambem material didatico para quem quer dominar este nincho. Nao se iluda que ligando o botao e saindo filmando voce vai acabar com um sucesso de bilheteria. Pode ate acabar com um viral, merme, hit do youtube quando muito.

    1. Curso de Cinema Reply

      Olá Guilherme, eu falei sobre isto no início do primeiro ato, que você pode conferir aqui, http://www.cursodecinema.com/como-escrever-um-roteiro-de-cinema-primeiro-ato/

      A melhor maneira de lidar com bloqueio criativo é preparar um bom esboço antes de encarar o seu projeto, desta forma você terá apenas que conectar os pontos durante o processo de criação.

      Se mesmo assim você estiver tendo problemas, uma caminhada ou um banho pode ajudar, as vezes a melhor estratégia é dar um tempo e esquecer, mas se você estiver tendo problemas com uma parte específica do roteiro, como o terceiro ato, aconselho rever cenas anteriores pois é provável que algo esteja muito errado – esta dica não é minha, é do Nick Hornby, escritor do High Fidelity (2000).

      Abraço e boa sorte!

      1. Regia Mend Reply

        Diferente de preguica e procrastinacao que quase sempre sao os meus casos e nao tem solucao(!!!) a melhor maneira de lidar com bloqueio criativo é sumarizar suas cenas, criar sinopses e tratamentos e localizar os buracos no roteiro, aquilo que tinha que estar la e nao esta, ou aquilo que esta e nao esta fazendo nada la. Faca cabecalhos para o que esta faltando, e jogue fora o que ja esta sobrando. Geralmente sua historia ja tem um esboço mental. Transfira este esboço para o papel. Crie cenas ainda que soltas pontuando esta historia. Voce sabe mais ou menos onde tem de passar para chegar de um comeco a um fim. Depois saia reescrevendo cenas isoladas. Se deu branco total, dedique-se a uma cena, brinque com ela, reescreva de modo diversos, converse com seus personagens. Faca Biblias, que sao tudo que cada personagem é, é capaz, nao é capaz, do que gosta, do que destesta, de como um gosto ou desgosto pode ir parar numa cena. Dedique-se a escrever as dez primeiras paginas, aquelas que voce anda anda anda ate chegar onde voce queria chegar. Quando chegar la, releia e veja se alguem perde alguma coisa se voce jogar fora ao menos a metade destas primeiras paginas. Geralmente nao. Lembre-se sempre de ja entrar na acao, e nao ficar horas preparando para a acao. Lembre de dispensar personagens, amalgamar varios em um so, como quando alguns personagens sao so bengala. Filme nao é novela que tem dezenas de atores que estao ali so para mostrar a dentadura e o novo corte de cabelo. Outra coisa boa, mas dificil, para espantar o bloqueio criativo é tricotar com outros roteiristas que queiram meter a colher no seu trabalho. Peca contribuicoes voluntarias e sem creditos criativos que uns e outros vao ficar felizes de enterter-se com seu roteiro. Mas nao de roteiro para seus amigos leigos lerem. Roteiro nao é conto de jornal e a maioria vai dizer que legal e nada mais que lhe de uma luz para corrigir uma virgula.

  8. Regia Mend Reply

    eu faco scriptdoctoring pra uns e outros, e para iniciantes que estao dando os primeiros passos em roteiro. As vezes animo e passo meses tutorando um ou outro. Qualquer dia vou canalizar num site proprio meus conhecimentos… para quem esta desorientado mas ja transferiu para o papel o comeco, meio e fim de sua historia, umas dicas: a cada reescrita, formate corretamente cena por cena. Corrija de uma vez todos os cabecalhos com seus tres elementos essenciais (INT.ou EXT.- LOCAL SUCINTO – DIA ou NOITE). A seguir de todo cabecalho é uma linha de açao. Nao entre na cena com dialogos. Dialogos devem ser pre-acompanhados de qualquer elemento visual. Trabalhe as transicoes e depois delete quase todos os termos transitorios: CUT TO, DISSOLVE, etc., sao dispensaveis. Os dialogos devem ser economicos. Dialogos nao sao ladainha, nem receita de bolo nem exposicao filosofica nem conversa de comadres/detalhes entre personagens. Sao minimalistas, Em cada cena, entre o mais tarde possivel, de preferencia no meio da acao, e de o fora o mais cedo possivel, de preferencia assim que atingir o objetivo da cena. Dentro de cada cena procure o set-up e o punchline ou algo que tenha funcoes similares, e corte todo o resto que seja gordura. Uma cena esta ligada a sua anterior e a sua posterior. Toda cena deve mover a historia para frente. O que sera que vai acontecer, aconteceu…nao ainda,,, o que sera que vai acontecer next? Conselho para iniciantes é sair cortando tudo que for superfluo: sujeito vai encontrar com amante e esta vai lhe dar o fora: nao precisa sair pontuando todo o caminho de onde vem, como chegaram ali, como estao ali, o que fizeram para estar ali, etc. Abra a cena logo no que importa: a cena esta la para que o sujeito leve o fora. Entao inicie ali, ja no momento do fora. E corte a cena assim que o fora for dado e a reacao do sujeito for captada, e ja va para outra cena porque a carruagem passa. Nao encha linguica, nem antes nem depois, e nao fique imaginando que a camera estara percorrendo cenarios paradisiacos. Va de acao em acao, de emocao a emocao, esqueca o floreio, concentre-se no drama. E drama é conflito. Bjs

  9. Luis Reply

    Cara, só posso te parabenizar do fundo do meu coração. Conheci seu site ontem à noite e já é certo que passarei aqui todos os dias, jamais conheci um site sobre cinema tão didático, tão verdadeiro, tão acolhedor, isso aqui exala paixão e nos deixa inspiradíssimos; talvez você não tenha dimensão do bem que faz à sétima arte, e, principalmente, aos brasileiros que sonham um dia poder trabalhar em função dela. Parabéns, vida longa ao site e muita sorte em sua carreira.

    1. Curso de Cinema Reply

      Oi Luis,
      desculpe pela demora na resposta.

      Muito obrigado pelo comentário, as suas palavras me incentivam da mesma forma. Irei estar postando mais artigos em breve.

      Grande abraço e sucesso com a sua carreira também!

  10. Thauana Reply

    Olá,
    estou adorando tudo por aqui, já estou acumulando idéias há uns 15 anos rs minha mente está uma bagunça! =) Mas as suas dicas estão me ajudando, espero em breve conseguir colocar algumas delas no papel, e dar uma aliviada nos meus pensamentos rs

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